Segundo Ciclo do Conhecimento foi realizado na unidade da Estácio de Copacabana (Foto: Dani Pimenta/RC Media)
A presença feminina nas artes marciais foi colocada em perspectiva durante o segundo encontro do Ciclo do Conhecimento, realizado na última quinta-feira (20), no campus Copacabana da Universidade Estácio. O debate reuniu profissionais com diferentes experiências dentro e fora dos tatames para discutir questões que ainda impactam diretamente a trajetória das mulheres no esporte, desde o combate ao assédio até a necessidade de maior representatividade em posições de liderança.
Com o tema “Mulheres nas Lutas”, o encontro mostrou que ampliar a participação feminina nas modalidades de combate passa também pela transformação dos ambientes onde atletas e professoras treinam e trabalham. A construção de espaços seguros, o reconhecimento das trajetórias femininas e a criação de condições para que mulheres permaneçam e prosperem no esporte estiveram entre os principais pontos levantados ao longo da conversa, que integra a programação de extensão do Global Sports Conference 2026.
Carla Ferreira, Lu Neder, Mel Lissey, Tatiana Cordeiro e Dani Pink participaram do painel e compartilharam experiências pessoais e profissionais para abordar os obstáculos que ainda fazem parte da realidade das mulheres nas lutas. A conversa passou por temas como desigualdade nas premiações, maternidade, assédio, segurança, liderança feminina e as barreiras que podem dificultar tanto a entrada quanto a permanência das mulheres nas academias e competições.
Durante o debate, Lu Neder destacou que muitos dos obstáculos enfrentados pelas mulheres ultrapassam a prática esportiva e estão relacionados à própria estrutura dos ambientes de treinamento e competição. A faixa-preta apontou comportamentos que, segundo ela, contribuem para afastar mulheres dos tatames e também chamou atenção para a ausência de lideranças femininas e a desigualdade existente em diferentes aspectos do esporte.
“A ‘brotheragem’ é algo que afasta as mulheres do tatame, né, ou ‘passar pano’ para o amigo abusador ou assediador, isso afasta as mulheres do tatame. Além disso, a ausência de liderança feminina na academia, falta de estrutura para maternidade, comentários sobre o corpo, questionamentos da capacidade, tolerância ao inadequado, diferenças de premiação… Todas essas questões são barreiras da permanência, do engajamento e da prosperidade da mulher no Jiu-Jitsu”, comentou Lu Neder.

A discussão também abordou a defesa pessoal feminina e a importância do conhecimento como ferramenta de prevenção. Psicopedagoga, bicampeã brasileira pela CBJJ e professora de defesa pessoal, Dani Pink ressaltou que seu trabalho tem como objetivo preparar mulheres para situações que podem exigir reação e proteção, destacando que a preparação começa antes mesmo de uma eventual situação de confronto.
“Eu sou psicopedagoga, sou bicampeã brasileira pela CBJJ e sou apaixonada por ensinar defesa pessoal. Fiz alguns cursos também de defesa pessoal policial. Eu amo ensinar defesa pessoal feminina, porque eu sei que aquilo que eu estou ensinando pode salvar aquela mulher em algum momento. A defesa pessoal começa muito antes do toque”, destacou a faixa-preta.
Outro ponto central do encontro foi a construção de ambientes seguros e acolhedores nos tatames. Educadora e faixa-preta, Tatiana Cordeiro defendeu que a presença feminina precisa ser acompanhada não apenas por maior participação, mas também pela criação de espaços nos quais mulheres possam se manifestar, trocar experiências e ter suas trajetórias reconhecidas.
“Um ambiente seguro nos tatames é o nosso sonho de consumo. Um ambiente com responsabilidade. Ter mulheres que possam ouvir e também ser ouvidas. Nós podermos debater, trocar conhecimentos, compartilhar ideias e mudarmos de ideia, o que é muito saudável. A gente se sentir segura no tatame em que estamos, de não precisar ter mais casos de mulheres desistindo do esporte por não se sentirem seguras no ambiente de treino. Além disso, é fundamental que as mulheres tenham cada vez mais suas trajetórias e histórias valorizadas”, reforçou Tatiana Cordeiro.

O Ciclo do Conhecimento é uma iniciativa idealizada e submetida por Felipe Guimarães Teixeira, contemplada com fomento da FAPERJ (Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro). O projeto tem a Universidade Estácio de Sá como instituição representante e vinculada à sua execução, contando ainda com o apoio do Instituto Comunidade Saudável.
Terceiro encontro aborda recuperação da dependência química
A programação do Ciclo do Conhecimento terá continuidade nesta quarta-feira (26), com o terceiro encontro, que terá como tema “O Tatame como Caminho na Recuperação da Dependência Química”. O debate reunirá Rafael Carino, Fernando Tererê, Leandro Tatu e Rogério Minotouro para discutir o potencial das artes marciais como ferramenta de transformação, recuperação e reinserção social.
O terceiro encontro será realizado às 19h, na Universidade Estácio – Campus Maracanã, com entrada gratuita e vagas limitadas (clique aqui). A atividade faz parte da programação que antecede o Global Sports Conference 2026 e dá sequência à proposta de abordar diferentes dimensões nas quais as artes marciais podem atuar como instrumentos de desenvolvimento humano e social.
O Ciclo do Conhecimento antecede o Global Sports Conference 2026, marcado para os dias 19 e 20 de setembro, no Rio de Janeiro. Primeiro congresso brasileiro dedicado à integração entre ciência, saúde, inovação, educação e impacto social a partir das artes marciais, o evento terá como pilares Ciência, Performance, Inovação e Transformação Social, reunindo atletas, pesquisadores, profissionais da saúde, educadores, gestores e representantes de projetos sociais.
