Conor McGregor, o atleta que virou empresa e mudou o jogo no MMA (Foto: Divulgação)
Em junho de 2026, o mundo voltou os olhos para o UFC Freedom 250, o histórico evento no gramado da Casa Branca, que teve o Alex Poatan no co-main event. Foi um espetáculo gigante, com repercussão global. Mas me diz uma coisa, sendo bem honesto: quantas pessoas fora da nossa bolha conseguiram assistir a essa luta ao vivo? Quantos comerciais na televisão você viu com a cara do Poatan antes desse evento?
Quase nenhum.
O nosso problema atual é um só: o MMA brasileiro saiu do mainstream — a TV aberta — e foi parar no aplicativo pago.
Na época do Anderson Silva, o esporte era mainstream de verdade. A luta passava na TV de graça, na sala de estar do brasileiro. O público casual, a família inteira e o vizinho assistiam no fim de semana. Ninguém precisava pagar mensalidade para saber quem estava lutando. Por isso, grandes multinacionais colocavam dinheiro pesado. Só o Anderson tinha contratos simultâneos com marcas como Renault, Budweiser e Burger King.
Hoje, Alex Poatan e Charles do Bronx fazem história no mundo inteiro, mas no Brasil o UFC só passa no streaming por assinatura. Para completar, em 2026 não há um único evento da organização no país. Se o torcedor não pagar os R$ 18,90 da mensalidade do aplicativo, nem fica sabendo que a luta aconteceu. Enquanto isso, o piloto Gabriel Bortoleto aparece em várias campanhas na televisão porque a Fórmula 1 voltou para a TV aberta na Globo, ao alcance do torcedor de domingo.
Na prática, quando o MMA saiu da TV aberta, a gente voltou a falar só para a nossa bolha.
Na minha última coluna, mostrei como a proibição das casas de aposta abalou o nosso mercado. Mas a verdade é uma só: a bet só dominou tudo porque o espaço no mainstream já tinha ficado vazio. A empresa de aposta não precisava de milhões de pessoas na TV aberta; ela só precisava da nossa bolha engajada no celular. A bet cobriu o rombo por um tempo. Agora que saiu de cena, a falta de vitrine voltou a expor as nossas fraturas.
Só que jogar toda a responsabilidade de mudar isso nas costas do atleta é fácil demais. O lutador já tem que treinar, bater peso, se machucar e sustentar a família. Cobrar que ele seja o seu próprio agente publicitário é irreal. Precisamos olhar para quem administra essas carreiras. Quem está batendo na porta do mercado corporativo nos meses em que o atleta não tem luta marcada? A imagem do lutador não pode sumir assim que o evento acaba.
Lá fora, a gestão profissional já entendeu esse jogo. O Conor McGregor virou a própria empresa e faturou cerca de US$ 600 milhões vendendo sua marca de uísque. E esse movimento continua: recentemente, o promissor Ian Machado Garry contratou a Matchroom Talent Agency, de Eddie Hearn — um dos maiores executivos do boxe mundial —, exclusiva para cuidar da sua imagem e fechar acordos comerciais fora do octógono.
A vitória abre portas e chama a atenção de todo mundo. Mas o cinturão não prepara proposta, não conversa com agência de publicidade e não assina contrato sozinho.
Quem está na caminhada — empresários, gestores e atletas — precisa entender de uma vez por todas: a luva e o calção pagam a conta dentro do octógono, mas é o trabalho de imagem fora dele que muda a vida da família do lutador.
A paixão do brasileiro pela luta continua gigante. A pergunta que fica é: se a gente já sabe formar campeões dentro do octógono, o que falta para cuidar da carreira deles fora dele com a mesma seriedade?
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