A proibição das apostas por medida provisória atinge o futebol, mas é no esporte de combate, mais frágil e mais dependente, que o estrago tende a ser maior.
Da noite para o dia, a casa de aposta que bancava o atleta e o evento saiu do ar. Não teve votação, não teve debate, não teve transição. Teve uma canetada.
No dia 25 de setembro, o governo federal publicou a Medida Provisória 1.394, que proíbe a exploração, a oferta e a publicidade de apostas de quota fixa em todo o país. As plataformas tiveram até 5 de outubro para liberar os saques dos apostadores. A partir do dia 6, sites e aplicativos saíram do ar. Os contratos de patrocínio perderam validade no mesmo prazo, e as marcas ganharam dez dias para desaparecer de qualquer material publicitário.
Dez dias. Há evento que leva seis meses só para fechar o card.
O próprio governo reconhece que vai abrir mão de R$ 1,5 bilhão em arrecadação ainda este ano e de mais de R$ 5 bilhões em 2027. No futebol, o impacto foi imediato: 13 dos 20 clubes da Série A tinham uma bet como patrocinador master, e só o Flamengo recebia mais de R$ 260 milhões por ano.
Mas esta coluna não é sobre futebol. É sobre quem não aparece na manchete.
Minha posição é clara. Discutir os limites das apostas é legítimo, e os danos são reais: endividamento, vício, famílias desestruturadas. Mas proibir sem transição é a forma mais irresponsável de enfrentar um problema real. E o esporte de combate vai pagar uma conta muito mais alta que o futebol.
O futebol tem colchão. A luta, não.
O Flamengo perde a casa de apostas e, no dia seguinte, já tem fila de bancos, montadoras e fintechs disputando a camisa.
Agora pense num evento de luta no interior do país, num card de boxe na periferia de São Paulo ou num atleta de jiu-jitsu que pagava a passagem para o Mundial com o patch de uma bet no kimono.
Nos últimos anos, as casas de aposta foram praticamente as únicas marcas que levaram a luta a sério. Patrocinaram eventos, transmissões, atletas, podcasts e canais. Entraram onde bancos e multinacionais nunca quiseram entrar porque, diziam, luta “não combina com a marca”.
Para a bet, combinava. Agora não pode mais.
Quem ocupa esse espaço? Ninguém sabe. E quando ninguém sabe, quem paga é o elo mais fraco: o atleta que vai lutar por uma bolsa menor, o promotor que cancela a próxima edição, o cinegrafista freelancer que deixa de ser chamado.
O brasileiro não vai parar de apostar. Só vai parar de ver o logo.
O fã vai continuar assistindo ao UFC, e a transmissão internacional vai continuar exibindo casas de aposta estrangeiras no octógono. O apostador vai continuar apostando, só que em plataformas offshore, sem CNPJ, sem imposto e sem nenhum mecanismo de proteção ao jogador.
O dinheiro não some, só muda de endereço. Sai do patrocínio do atleta e do evento nacional, que gerava emprego aqui, e vai para operadores de fora, que não pagam nada ao Brasil.
É como fechar o bar legalizado da esquina e concluir que o bairro parou de beber. Não parou. Só passou a beber em lugar pior.
A luta também errou
Quem é do meio precisa admitir: nos acomodamos.
Os lutadores ficaram dependentes de uma única categoria de patrocinador. Muitos aceitavam lutas só porque o patrocínio da bet estava garantido se subissem ao cage ou ao ringue. Quando a bet chegava com o cheque, quase sempre o maior da carreira, ninguém perguntava o que aconteceria se aquilo acabasse amanhã. Ninguém construiu um plano B.
O mesmo vale para os dois lados. Eventos chegaram a ter mais da metade da receita vinda de apostas. Atletas deixaram de se importar com a bolsa e lutavam pela exposição, porque quem pagava de verdade era o patrocinador. Nenhum deles tinha um modelo de negócio. Tinham um patrocinador. E patrocinador, por definição, um dia vai embora.
A MP é brutal, sem dúvida. Mas também escancara uma fragilidade que já existia. O esporte de combate nacional precisa aprender, e rápido, a vender o que tem de mais valioso, que é uma audiência engajada, apaixonada e fiel, para marcas que ainda não enxergaram isso.
O relógio corre contra quem está no tatame
A medida provisória tem 120 dias para ser votada pelo Congresso. Pode virar lei, ser alterada ou caducar. Mas os eventos cancelados nesse intervalo não voltam. E o atleta que pendurar as luvas por falta de patrocínio também não.
A questão não é ser a favor ou contra as apostas. É saber se um país pode mudar as regras no meio do round e ainda esperar que o lutador continue de pé.
E você, acha que a proibição era necessária, ou que o esporte de combate virou dano colateral de uma decisão tomada sem olhar para quem vive da luta? Deixe sua opinião nos comentários.
