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Felipe Nilo destaca artes marciais como ferramenta de inclusão no autismo e ganha espaço no debate nacional

Faixa-preta e ex-lutador de MMA, professor apresenta método de artes marciais inclusivas na Jornada do Autismo no Rio e expande rede pelo país
Mateus Machado 28/03/2026
Felipe Nilo se dedica à estruturação de um método de ensino que adapta o processo, sem descaracterizar a essência das artes marciais (Foto: Divulgação)

Felipe Nilo se dedica à estruturação de um método de ensino que adapta o processo, sem descaracterizar a essência das artes marciais (Foto: Divulgação)

O professor de Artes Marciais Felipe Nilo construiu uma trajetória vitoriosa no esporte de alto rendimento, com seis vitórias em seis lutas no MMA. Há mais de uma década, no entanto, decidiu direcionar sua carreira para outro propósito: usar as artes marciais como ferramenta de desenvolvimento para pessoas com transtorno do espectro autista (TEA) e outras deficiências.

A mudança começou de forma inesperada. Durante uma aula, Nilo teve contato com um aluno autista e percebeu que não estava preparado para lidar com aquela realidade. A partir dali, iniciou uma busca consistente por formação e aprofundamento em áreas relacionadas ao desenvolvimento humano, aproximando-se de referências científicas e estruturando um método de ensino voltado à inclusão. “Eu não tinha conhecimento sobre autismo. Fui estudar e entendi que poderia ajudar por meio da arte marcial”, afirma.

Desde então, ele se dedica à estruturação de um método de ensino que adapta o processo, sem descaracterizar a essência das artes marciais. A proposta, segundo o professor, é criar caminhos para que o aluno aprenda de fato a modalidade, como judô ou jiu-jitsu, e não uma versão simplificada, respeitando suas particularidades e seu tempo de desenvolvimento. Na prática, isso envolve a organização progressiva dos movimentos, a previsibilidade das aulas e estratégias que favorecem compreensão, participação e autonomia dentro do tatame.

Nilo é um dos pioneiros no Brasil e exterior na aplicação das artes marciais com foco em pessoas autistas e outras deficiências. Em sua atuação, defende que a prática vai além de aspectos tradicionais, podendo contribuir para o desenvolvimento de habilidades motoras, regulação comportamental, organização corporal, consciência de limites e fortalecimento da autonomia e da autoestima. Estudos na área do autismo e do desenvolvimento motor indicam que intervenções baseadas em movimento estruturado, quando conduzidas com critérios e individualização, podem favorecer avanços significativos nesses domínios. “A gente consegue trabalhar diversos aspectos do desenvolvimento por meio da prática das artes marciais desde que exista compreensão sobre o autismo”, diz.

A prevenção ao bullying e a defesa do direito de crianças e adolescentes autistas à segurança no ambiente escolar estão entre os principais eixos de sua atuação. Crianças e jovens com TEA estão entre os grupos mais vulneráveis a situações de violência, exclusão e agressões recorrentes no contexto escolar. Nesse cenário, a autodefesa é trabalhada como instrumento de proteção, consciência corporal e resposta responsável, e não como incentivo à agressividade. “Autodefesa é controle e uso consciente da força. É diferente de comportamento agressivo”, explica.

Esse será o foco da palestra que Nilo apresentará na Jornada do Autismo, que acontece nos dias 28 e 29, no Riocentro, no Rio de Janeiro. Considerado o maior evento do país na área, o congresso deve reunir cerca de 6 mil participantes e especialistas do Brasil e do exterior, com debates sobre intervenção precoce, linguagem, comportamento e inclusão. Dentro desse contexto, o professor levará uma abordagem prática, voltada à aplicação das artes marciais como ferramenta de desenvolvimento e proteção no ambiente escolar.

Único representante das artes marciais entre os palestrantes, Nilo leva ao congresso uma abordagem prática, construída a partir de anos de atuação direta com alunos, famílias e equipes multidisciplinares. A proposta é demonstrar como as artes marciais podem integrar, de forma complementar, estratégias voltadas ao desenvolvimento e à inclusão de pessoas autistas.

A participação no congresso ocorre em um momento de expansão da Rede Felipe Nilo, estrutura que vem ampliando sua atuação para diferentes regiões do país com base em um método padronizado e formação de equipe. Atualmente, a rede conta com unidades em cidades como Rio de Janeiro, Vitória, Campinas, Belo Horizonte e Maceió, além de outras localidades, e segue em processo de crescimento estruturado. A previsão é alcançar 20 unidades até o fim do ano.

O modelo adotado prioriza a implementação das artes marciais inclusivas dentro de clínicas multidisciplinares, atuando de forma integrada e complementar ao trabalho já desenvolvido por outros profissionais. A proposta é ampliar as possibilidades de desenvolvimento por meio das artes marciais, respeitando o papel de cada área dentro do processo. “A gente trabalha com vidas, não com produtos. Por isso, estruturamos o crescimento com responsabilidade”, afirma.

Para Nilo, o avanço da discussão sobre o autismo no Brasil depende da integração entre ciência, educação e práticas aplicadas com responsabilidade. Nesse contexto, ele defende a consolidação das artes marciais como parte desse processo, ampliando as possibilidades de desenvolvimento e inclusão. “O objetivo é ampliar o acesso e mostrar que a pessoa autista pode estar onde quiser, inclusive no tatame”, diz.

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