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Dos tatames aos negócios: a trajetória de quem participou da profissionalização dos esportes de combate no Brasil

Como atleta, professor, organizador e empresário, Ricardo Santana acompanhou de dentro a transformação dos esportes de combate; confira
Diogo Santarém 01/07/2026
Ricardo (á direita) é um dos grandes incentivadores dos esportes de combate no Brasil (Foto: Reprodução)

Ricardo (á direita) é um dos grandes incentivadores dos esportes de combate no Brasil (Foto: Reprodução)

Muito antes de fundar marcas, abrir indústrias ou participar da profissionalização dos esportes de combate no Brasil, Ricardo Santana era apenas uma criança aguardando a irmã sair da escola. Foi nesse período que sua mãe o matriculou no Judô, iniciando uma relação que atravessaria toda a sua vida. Como atleta, professor, organizador de eventos e empresário, Ricardo acompanhou de dentro a transformação das lutas de um ambiente quase marginalizado para uma indústria consolidada.

“O que era apenas uma forma de ocupar meu tempo acabou se transformando em uma paixão que me acompanha até hoje. Aos 13 anos eu já era graduado e a luta tinha deixado de ser apenas uma atividade física. Ela já fazia parte da minha identidade”, relembrou.

Segundo Ricardo, as artes marciais foram responsáveis por ensinar valores que mais tarde também se tornariam pilares da sua trajetória empresarial – e na vida. “Foi através das artes marciais que aprendi disciplina, respeito, perseverança, responsabilidade e autocontrole. Elas têm o poder de formar pessoas melhores”.

Quando começou a competir e dar aulas, o cenário era completamente diferente do atual. Faltavam equipamentos, informação, patrocinadores e até reconhecimento social para quem praticava esportes de combate. O preconceito era comum e o mercado praticamente inexistia.

“Meu próprio pai não queria que eu lutasse. A imagem que muitas pessoas tinham era de que aquilo era coisa de brigador e não um esporte capaz de ensinar disciplina, respeito e valores”, contou.

Foi justamente convivendo com essas dificuldades que Ricardo identificou uma oportunidade. Ao lado de atletas, treinadores e academias, percebeu que havia uma enorme carência de equipamentos especializados no Brasil. O problema que vivia diariamente acabaria se transformando em negócio.

“Naquela época praticamente não existia um mercado estruturado para os esportes de combate no Brasil. Faltavam produtos, distribuidores, eventos, mídia especializada e empresas que acreditassem no potencial daquele segmento”, disse, para completar:

“Hoje vemos médicos treinando Muay Thai, empresários praticando Jiu-Jitsu, mulheres ocupando espaço cada vez maior nas academias e crianças iniciando nas artes marciais desde cedo”.

Parceria com grandes marcas é um dos diferenciais da sua carreira (Foto: Arquivo pessoal)
Parceria com grandes marcas é um dos diferenciais da sua carreira (Foto: Arquivo pessoal)

A partir dessa visão, fundou em 2005 a MMAShop, considerada a primeira loja especializada em esportes de combate do país. Depois vieram as importações de marcas internacionais como Fairtex, Century, Ringside e Grant, além da participação em projetos que ajudaram a fortalecer todo o ecossistema das lutas.

“O mais interessante é que eu nunca enxerguei aquilo apenas como uma oportunidade comercial. Eu era atleta, professor e consumidor daqueles produtos. Conhecia as dores do mercado porque também vivia aquelas dificuldades. Acredito que muitos dos melhores negócios surgem exatamente dessa forma: quando você conhece profundamente um problema e decide construir uma solução para ele”, destacou.

Ao longo dos anos, Ricardo participou de praticamente todas as etapas da evolução do setor. Atuou como treinador, organizador de eventos, importador, editor de mídia especializada, fabricante e empresário. Essa experiência multifacetada ajudou a construir uma visão rara sobre o mercado brasileiro.

“Eu não acompanhei a evolução do setor de fora. Eu participei dela em praticamente todas as etapas”, resumiu.

Ricardo em encontro com Shogun e Rafael Cordeiro, dois ícones do MMA (Foto: Arquivo pessoal)
Ricardo em encontro com Shogun e Rafael Cordeiro, dois ícones do MMA (Foto: Arquivo pessoal)

Artes marciais em evidência

Entre os marcos que testemunhou, Ricardo destaca a mudança cultural que ocorreu principalmente após a chegada do UFC ao Brasil e a popularização das artes marciais como atividade física. Para ele, o esporte deixou de ser visto apenas como combate e passou a ser associado a saúde, disciplina e qualidade de vida.

“Talvez essa seja a maior transformação de todas. O esporte deixou de ser marginalizado e se tornou mainstream”, avaliou.

Mesmo após décadas dedicadas aos negócios, Ricardo mantém uma conexão direta com o esporte. Recentemente, participou da preparação do ator Duda Nagle para a luta de Boxe contra Acelino Popó Freitas, experiência que o fez reviver emoções dos tempos de competição.

“Quando ele confirmou que realmente aceitaria lutar contra o Popó, eu abracei a causa. Aquilo reacendeu uma chama que estava adormecida. Quem já lutou sabe o vício que é esse sentimento. (…) A luta me ensinou que cair faz parte do processo. O importante é continuar avançando mesmo depois das quedas”, revelou.

SPANK já patrocinou Charles do Bronx, um dos principais nomes do Brasil no MMA atualmente (Foto: Arquivo pessoal)
SPANK já patrocinou Charles do Bronx, um dos principais nomes do Brasil no MMA atualmente (Foto: Arquivo pessoal)

Ao olhar para trás, Ricardo prefere medir seu legado não pelas empresas que construiu, mas pela contribuição que deixou para o desenvolvimento do esporte. Uma trajetória que começou nos tatames, passou por academias, eventos, revistas, fábricas e continua avançando com o mesmo propósito que o acompanha desde criança.

“Quando olho para trás, não penso primeiro nas empresas ou nos negócios. O que mais me orgulha é ter participado da evolução dos esportes de combate no Brasil em diferentes momentos e funções”.

Hoje como dono da marca SPANK, seu foco está em um novo desafio: ajudar a mostrar ao mundo que o Brasil não produz apenas campeões dentro dos ringues e octógonos, mas também marcas, produtos e empresas capazes de competir em nível global. “O Brasil já mostrou ao mundo que sabe formar campeões. O próximo passo é mostrar que também podemos construir marcas globais e ocupar uma posição de liderança na indústria mundial dos esportes de combate”.

Saiba mais sobre esportes de combate, aqui

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